O Lugar
Taianne Petelin França*
Quem já ouviu falar em
política cultural nessa cidade? Alias, o que é cultura? Você tem necessidade
dela? Todo ser humano realiza cultura,
pois cultura pode ser entendida como modo de viver e cultura na cidade pode ser
entendida como o modo de vivenciar o espaço em que convivemos. Claro, essa
vivencia se manifesta de diversas maneiras, há possibilidades de diferentes
gostos e preferências, afinal, a cidade, mesmo a nossa pequena grande Dourados,
é um mundo de possibilidades. Enfim, será mesmo que todos participam da
cultura?
A cultura é um setor de
desenvolvimento social, portanto é de
Direito de todo cidadão a livre expressão e comunicação de seu modo de vida,
desde o fim das grandes ditaduras e lógico, respeitando o espaço do outro. Mas
há aqueles que querer viver de cultura, ou seja, produzir cultura como forma de
ganhar a vida, são os artistas locais. Aqueles que sentem essa necessidade
latente de falar com o publico de forma lúdica, com imaginação e sentimento
para fazer sentir e do sentir, refletir, do refletir, agir, do agir viver e
isso se torna um ciclo vicioso, o de ser sentido e fazer sentir, pra receber
mais sentido como resposta e começar o ciclo novamente.
E o “poder publico”
reconhece esses indivíduos e estabelece regras e leis de incentivo e de proteção ao que se chama de “cultura”, “patrimônio
cultural”, “identidade” e “diversidade”. Uma lei serve como diretriz, como
regra de um jogo, para a realização de
fato de algo que se idealizou na abstração de uma mente pensante. Que na
verdade são varias mentes e varias mentalidades, afinal dizem por ai que
vivemos em uma democracia. E alias, uma democracia estabelece de forma publica
uma política cultural. Aqui na nossa realidade há um órgão vinculado a prefeitura
que é responsável pela articulação dessa “política”, que seria uma espécie de
diretriz para a administração de recursos destinados ao setor “cultura e arte”.
Hoje esse órgão reponde pelo nome de Secretaria de Cultura. Falar em secretaria
de alguma coisa é falar em órgão gestor, e gestor do que? De recursos. Há! Quer
dizer que há recursos para a cultura? Há formas de se viver do trabalho
artístico? Sim! Gostaria de dizer isso
animadamente, mas não posso! Explico porque.
O nosso “mercado
cultural” parece não abrir espaço para a arte alternativa, digo alternativa no
sentido de arte que não serve ao que se chama indústria cultural ( bem
exemplificado pela cultura original das novelas e programas de TV, sertanejos
universitários e exposições agropecuarias), que na verdade são
apropriações medíocres que se fazem do
trabalho artístico, visando unicamente o lucro e não o fazer sentido, que é
próprio dos sentimentos que a arte frutifica na alma humana e faz criar o deleite ou a
perturbação dos seres.
Enfim, a principal
fonte de recurso para este tipo de ARTE, que permite pelo menos dar o ponta pé
inicial, ou seja, o capital inicial em uma produção artística, nos foi cortada no ano de 2012. O Fundo de Investimento a Produção Artistico
Cultural de Dourados- FIP não será realizado esse ano. Este Fundo prevê dotação
orçamentária diretamente da prefeitura
da cidade, portanto diretamente do bolso do contribuinte, para a realização de
projetos artísticos e culturais. Implementado pela Lei n° 2703/2004 e Decreto n°3576/2005, o FIP tem realizado
produções artistico-culturais desde 2005 até 2011, quando então foram mudadas
algumas relações de política e administração cultural da cidade, ficando o
setor cultura não mais vinculado a Fundação Cultural e de Esportes de Dourados
(FUNCED), e sim a uma Secretaria de Cultura – diretamente ligada a Prefeitura Municipal.
Tal fato desarticulou
alguns procedimentos burocráticos tornando inviável no nível técnico-juridico-burocratico-blá-blá
a execução do FIP 2012. O recurso, que na sua ultima execução somava R$ 300.000,00
e uns quebrados, caiu para 00,00R$ na presente realidade. Além disso,
sabe-se que nada do que seja publico pode funcionar sem a representação da
Sociedade Civil no que se denomina sistema democrático de governo. Assim, para
a realização do FIP, divulgação do edital , fiscalização dos projetos
executados e todo o processo que se segue, é necessário que esteja bem
constituído um tal de Conselho Municipal de Cultura, que seria responsável por
trabalhar junto aos administradores da cultura, em função de um bom
aproveitamento do recurso que, querendo ou não, é entendido como uma vitória da
classe artística local. O Conselho de Cultura fora instituído em 2004 , desde
então a cada dois anos há uma eleição
que acontece em Fórum publico para a reformulação dos artistas membros do
Conselho de Cultura.
A equipe que constituiu
o ultimo Conselho de Cultura, não articulou o Fórum de Cultura para a eleição dos
novos conselheiros, ficando o Conselho inativo no inicio deste ano e este fato
somou como argumento para a justificativa da não realização do FIP 2012, pois atrasou
todo o processo que previa a publicação do edital em fevereiro. Pois bem, alem
de não realizar o FIP, no ano de 2012 a Prefeitura lança um projeto chamado “Palco
Cultura”, que previa apresentação de grandes nomes nacionais da arte,
principalmente da musica, em Dourados e junto a eles, abriu um edital
conclamando os artistas locais para apresentações no mesmo “Palco Cultura”,
porém, sem pagamento de cachê para os de casa. Esse fato deixou muitos dos
artistas de cabelo em pé e nervos a flor da pele. Começaram então uma serie de
reuniões visando a organização da classe artística perante o poder publico.
Diante da revolta houve
união. Os artistas interessados na tal política cultural se articularam junto a
Secretaria de Cultura para a nova constituição do Conselho de Cultura com
urgência, na esperança de realizar o FIP 2012. Foi assim que aconteceu no dia
07 de maio de 2012, o Forum de Cultura
onde foram eleitos os novos Conselheiros com a promessa de que o recurso do FIP
estaria pronto para ser executado e que seria de R$ 333.000,00. Em seguida, foram iniciadas os trabalhos de avaliação do Edital
do FIP entre outros para lançamento do Edital assim que houvesse a resposta
definitiva do Prefeito sobre a disponibilidade do recurso. A resposta veio e
foi definitiva: NÃO!
As justificativas foram as seguintes: de acordo com os administradores
do setor cultura em Dourados, é de pleno Direito que o prefeito administre as
despesas do Prefeitura, assim, se ele não destinou o recurso, o recurso não há,
o que existia era uma estimativa dos valores que seriam destinados ao Fundo.
Além desse há outros argumentos:
O período atual é de Fechamento de Contas de toda a
administração da prefeitura dos últimos 4 anos. Sendo assim, o Prefeito tem
avisado em todas as Secretárias que há uma economia de gastos para se cumprir
com a meta de fechamento das contas dos últimos quatro anos da administração
municipal.
O principal argumento por parte da prefeitura é o de
Prioridades. Segundo os informantes do prefeito, os recursos estão escassos , portanto algumas
coisas como o processo “tapa buracos” e as obras são prioridades, pois atendem a um maior
numero de pessoas. Isso não significa que a Cultura está sendo deixada de lado
pelo Prefeito, afinal, ele até desmembrou a Funced, criando a Secretaria de
Cultura e outra de Esportes, permitindo assim que os recursos fossem
administrados por instancias diferentes, também criou o projeto NACE que incentiva
as escolas de artes (privadas) já existentes, ou melhor, resistentes...é o que
se houve da parte dos institucionais.
Isso nos leva ao terceiro argumento, a Restruturação da
Secretaria de Cultura. A casa ainda não está em ordem, e o processo FIP-2012 não
pode ser executado com firmeza, nos procedimentos legais que cabem a ele. Há
argumentação de que as prestações de
contas não homologadas e as execuções de projetos pouco fiscalizadas, somados
agora ao pouco tempo para o fechamento do ano e das execuções da atual gestão
do Município como justificativa para a
não execução da Lei do FIP. Ninguém quer levar tarefa para casa, é o que
me parece. No entanto, o Secretario de Cultura se diz disposto a ser
fiscalizado e agradece a execução do ultimo Fórum onde foram eleitos os novos Conselheiros de
Cultura, que agora podem estar mais presentes na Secretaria e fiscalizar as
execuções do próximo FIP.
Percebe-se que o que aconteceu com o FIP foi um resultado de
erros adminstrativos acumulados ao longo do tempo, fato em que a principal
prejudicada é a classe artística e com ela, a cultura da cidade como um todo,
pois ainda não estamos discutindo nos espaços que nos cabem como “cidadãos” , interessados e atuantes, as
reais políticas de cultura.
Assim, diante de Leis que ditam regras, regras que ditam
condutas, condutas que ditam valores, mantivemos nossa mente criativa, ativa na criação de saídas e
alternativas. Os artistas querem viver
de dinheiro publico? Acho que não é esse nosso caso, mas sabemos que existem essas tais regras e os
Direitos que foram se acumulando diante de nossos olhos, que mais parecem que
salvaguardam as más condutas e às exceções á regra no que se refere à conduta dos nossos
administradores e “representantes” juridicamente reconhecidos.
Representantes? Eu me pergunto, nós que dominamos as artes,
ou seja, que dominamos o oficio de fazer sentir e fazer imaginar, o oficio mais
libertador de todos os até então conhecidos, tão libertador que mal sabemos o
significado de “arte”... Enfim, nós que teoricamente, nos entregamos à criação
ficaremos vitimados? Reféns? Espectadores nesse processo que sabemos que não
nos representa? Não sei qual palavra utilizar...quero mesmo é dizer NãO! Um não
escancarado que diz que NÃO VAMOS FICAR
PARADOS! E se a cidade toda ficasse sem o que nós aqui chamamos de arte? Como
fica? Ah...divagações a parte, queremos mostrar a nossa cara!
A falta do FIP reflete
o descaso político geral da cidade. A inabilidade do regime democrático que
legitima práticas e ofícios de corrupção do ser humano. Descaso dos
administradores e ignorância dos interessados, que parece que mal sabem sobre sua importância e identidade como
artista, menos ainda de seu sentido de pertencimento a cultura local. Pouco se
entende sobre o fato de que existem pessoas que são responsáveis socialmente
por mudar mentalidades, por transformar percepções, por refletir imperfeições,
não apenas para entreter, mas pra antever, por anunciar o que pode ser! Arte!
Liberdade! Comunidade! Tudo isso esta muito bem legitimado juridicamente pela
Constituição Federal.
Enfim, precisamos
fazer alguma coisa, tomar as ruas, as telas de TV, os programas de rádio, as
praças, todos os locais ditos “públicos”, lugares onde eu e você somos os donos simplesmente pela presença e vivencia
cotidiana, por compartilhar, onde eu deveria poder ser o que sou, mostrar os
anseios e a minha arte, a minha manifestação! Não é só a cultura que está
“parada”, sabemos que o sistema todo está caminhando pra auto-destruição! E
qual a nossa função como mentes criativas? Ou vocês aqui não são artistas? São
apenas produtores? Homens e mulheres de negócio? Não sentem minha gente? Não
sentem mais a angustia que apenas a criação resolve, essa coisa que não se
explica apenas se sente? A revolta contra os padrões? Nada disso? O que fizeram
dos caras pintadas? Reflexos mal formados? Representações bizarras?
Foi como resposta a essas inquietações e constatações que foi
criado “O Lugar”- afinal a pressão trouxe solução – aproveitando o espaço
aberto pelo Festival Internacional de Teatro de Dourados que é realizado
através da UFGD, com o apoio da Prefeitura Municipal através da Secretaria de
Cultura que cedeu o espaço do Parque dos Ipês e a estrutura do tablado que
funciona como palco para a realização do evento que acontece após os
espetáculos do FIT. A organização do “O Lugar” é a primeira ação com vistas a
ocupação do nosso Lugar, lugar de ser que sente, pensa, vive, se diverte e
convive, é tambémum fruto das reuniões e articulações do Músicos em Movimento
(MM) e Grupão – Movimento dos Artistas de Teatro de Dourados, sob a organização
do coletivo BarbariÊ. Com os recursos captados com a venda do nosso álcool e
até do nosso suor (ninguém bebe suor não, mas se enebria pelo fruto do nosso
trabalho que é bem suado quando se trata de organizar este evento com as
próprias mãos), serão realizadas em outros espaços públicos shows e
apresentações dos grupos que se envolveram e estão se envolvendo nesse processo.
O que se pretende é mostrar que existe arte nessa cidade e que
é preciso espaço pra ter um publico, pra ter espaço é preciso recurso. Há por
ai a proposta de lei que destina 1% dos impostos para a cultura e na nossa
cidade não tivemos míseros 300 mil para dividir entre os artistas. NÃO! Não
ficamos parados não! “ O Lugar” vai se mexer! Porque quem não tem nada tem pelo
menos Movimento! Braços dados e laços! Tudo que a gente precisa é de público
generoso, capazes de se entregar ao desconhecido! Porque a arte vem do direito
que temos de errar! Até a próxima!
*Taiane é atriz e acadêmica do 4º ano de Ciências Sociais da UFGD.
Nenhum comentário:
Postar um comentário